Sabe-se, há muito tempo, que pressão alta, colesterol alto, obesidade, diabete são fatores de risco clássicos para doença cardíaca. Mas o que se descobriu agora é que mulheres devem estar atentas a outros tipos de risco especificamente relacionados ao sexo feminino. Os dados são de pesquisa publicada na edição de março/2026 da revista científica Atherosclerosis.
Esses fatores "femininos" costumam ser negligenciados por médicos e pacientes, "em parte porque as mulheres foram sub-representadas por muito tempo em ensaios clínicos científicos sobre as doenças cardiovasculares, o que atrasou a descoberta desses riscos." (Corliss, 2026, p. C6)
Alguns desses riscos estão relacionados com doenças autoimunes, sobretudo porque mulheres têm o dobro de probabilidade de desenvolver tais doenças em comparação aos homens. Três delas, artrite reumatoide, lúpus e artrite psoriásica, causam inflamação em todo o corpo, o que aumenta o risco de enfarte e acidente vascular cerebral (AVC).
Outros fatores estão relacionados à reprodução, como desequilíbrios hormonais e infertilidade - síndrome dos ovários policísticos - e, especialmente, problemas que surgem durante a gravidez, como o diabete e a pressão alta, que aumentam o risco de doença cardíaca. O mesmo ocorre com a menopausa precoce (antes de 40 anos). A terapia hormonal (estrogênio isolado ou combinado com progesterona) pode aliviar sintomas da menopausa, mas também podem trazer efeitos cardiovasculares. Por isso, a importância de sempre conversar com um(a) médico(a).
Também certos tratamentos contra o câncer, incluindo o câncer de mama, o mais comum entre as mulheres, podem elevar o risco cardiovascular, pois tratamentos com quimioterapia e radioterapia no tórax podem ter efeitos adversos sobre o coração e os vasos sanguíneos.
Acrescente-se a isso a própria anatomia do coração das mulheres que, em média, é menor que o dos homens, assim como suas artérias coronárias. Outro estudo, também de 2026, constatou que, "embora as mulheres tendam a ter menores quantidades de placa coronariana que os homens, esses depósitos gordurosos ocupam uma fração maior de suas artérias menores" (Corliss, 2026, p. C5). Sabe-se que a maioria dos enfartes, tanto em mulheres quanto em homens, ocorre quando uma das principais artérias coronárias se estreita devido a placas de gordura ou por coágulos sanguíneos. Portanto, essa descoberta anatômica do coração de mulheres sugere aumento do risco cardíaco feminino, o que levará os médicos a terem de reconsiderar os limites referenciais de placa estabelecidos para essa população.
As mulheres também têm maior probabilidade de apresentar outras duas condições: doença microvascular, condição que faz os menores vasos do coração funcionarem mal, e espasmos das artérias coronárias, nos quais as artérias se contraem repentinamente por curtos períodos. Ambas limitam o fluxo sanguíneo que irriga o coração, causando dor no peito, falta de ar e outros sintomas no coração.
Outras duas condições incomuns são muito frequentes em mulheres: a dissecção espontânea da artéria coronária, que se refere a um "rasgo" na parede da artéria, e a síndrome de Takotsubo (também conhecida como "síndrome do coração partido"), que é potencialmente grave, desencadeada por estresse e que enfraquece temporariamente o músculo cardíaco durante a pós-menopausa.
Como se vê, as mulheres, a partir de agora, devem ficar mais atentas às suas próprias condições e fatores de risco, aquelas que as diferem dos homens. Se você teve, por exemplo, complicações relacionadas à gravidez ou tem doenças autoimunes, é importante informar ao cardiologista pois isso pode influenciar o modo como você será avaliada e tratada para doenças cardiovasculares.
Referência:
CORLISS, Julie. Mulheres têm riscos cardíacos específicos. O Estado de S. Paulo, 20/04/2026, p. C5.

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